"No início era uma promessa para que a ilha de São Miguel, nos Açores, fosse poupada à fúria da natureza. Grupos de homens – os ranchos - mantêm viva esta prática, como se o sacrifício de percorrer a ilha a pé, ao longo de 300 quilómetros, com a cevadeira às costas, terço na mão, a rezar pelos seus e por em quem neles confia a sua oração, possa adormecer os vulcões. A fé destes homens e o seu poder de oração é inimaginável. Os romeiros não são santos, mas garantem que a romaria entre “irmãos” faz deles melhores homens."
Excerto de texto por: Ana Luísa Oliveira / JN
** Série de 12 retratos de um grupo de Romeiros, provenientes do Cabouco (Lagoa, Ilha de São Miguel), realizados em Março 2017.
ROBERTO CARLOS MEDEIROS PEREIRA, 47 ANOS // 27 ROMARIAS (IRMÃO MESTRE)
JOSÉ CARLOS SOUSA, 49 ANOS // 31 ROMARIAS
EUGÉNIO AGUIAR, 49 ANOS // 23 ROMARIAS
IVO ALMEIDA, 9 ANOS// 1 ROMARIA
VÍTOR PACHECO, 39 ANOS// 8 ROMARIAS
JOSÉ PIMENTEL, 54 ANOS// 1 ROMARIA
GONÇALO RESENDES, 17 ANOS// 6 ROMARIAS
PEDRO MONIZ, 42 ANOS// 22 ROMARIAS
NUNO FILIPE PEREIRA, 35 ANOS// 2 ROMARIAS
NORBERTO FARIA, 48 ANOS// 11 ROMARIAS
RAUL CÉSAR, 27 ANOS// 2 ROMARIAS
NUNO BOTELHO, 34 ANOS// 3 ROMARIAS
A ORIGEM DAS ROMARIAS
Tradição oriunda de S. Miguel, ilha do Arquipélago dos Açores, as romarias quaresmais tiveram a sua origem, segundo se crê, no início do século XVI, em Vila Franca do Campo, primeira capital da ilha. Constituíram a resposta encontrada pela população de então para aplacar a fúria divina que, assolando essa localidade, soterrou os vila-franquenses e todos os seus haveres. Na sequência desta catástrofe natural, ocorrida no dia 22 de Outubro de 1522, os poucos sobreviventes ergueram uma ermida, consagrada a Nossa Senhora do Rosário, no local onde actualmente existe o Convento de S. Francisco. Todas as quartas-feiras, dia da semana em que ocorrera a catástrofe, a população da ilha, à noite, dirigia-se em romaria a esse local. Com o passar dos anos, algumas paróquias começaram a organizar romarias, que, ao longo de oito dias, percorriam a ilha a pé, parando em todas as igrejas onde fosse venerada a Virgem e/ou onde estivesse o Santíssimo Sacramento. Durante o percurso, entoavam o hino de Nossa Senhora (Avé Maria). No ano de 1962, o Bispo da diocese, D. Manuel Afonso de Carvalho, promulgou o Regulamento dos Romeiros, vinculando os responsáveis pelos ranchos ao cumprimento do mesmo, assim como à realização de reuniões prévias, de preparação. Essa orientação foi continuada por D. Aurélio Granada Escudeiro, em cujo episcopado foi criado o Grupo Coordenador das Romarias Quaresmais de S. Miguel.
O TRAJE ROMEIRO E A SUA SIMBOLOGIA
O Romeiro ostenta o bordão, xaile, lenço e saco ao ombro. Leva ainda dois terços, um ao pescoço e outro na mão para a oração durante o decurso de toda a romaria. O bordão serve para apoiar e facilitar o caminhar do peregrino pelas veredas e atalhos acidentados da ilha, o xaile e lenço por sua vez, para protegê-lo do frio e da intempérie. Embora o traje tenha originado das necessidades puramente físicas do romeiro em peregrinação, este transformou-se com o decorrer do tempo em simbolismos místico-religiosos: O bordão relembra o ceptro entregue a Cristo pelos romanos no seu julgamento ante Pilatos, o xaile a Sua Túnica, o lenço a coroa de espinhos do Seu suplício e o saco a Cruz a caminho do Calvário.

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